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Letras da casa humboldt

A literatura clássica para além da leitura - Daniella Buttler

Em nossa vida escolar, sobretudo no Ensino Médio, as aulas de Literatura nos obrigam a ler os clássicos.  Para muitos, isso pode parecer uma tortura. Ler um livro escrito há quase duzentos anos, com uma linguagem diferente, como o tupi-guarani em Iracema, não é tarefa fácil. Trata-se de uma realidade distante da nossa.

Ítalo Calvino apresenta várias respostas à pergunta, título de seu livro mais famoso na educação: Por que ler os clássicos?.  A obra nos fornece diversas facetas de um clássico, mas a mais contundente e simples é: a única justificativa que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não os ler!

Pois bem! Por que é melhor ler do que não ler então? Recorri ao Calvino para trazer uma resposta resumida ao leitor. Para que ler esses livros? Eles têm um valor incalculável, não só para passar nas provas e vestibulares, mas para nossa formação como pessoas, e algumas reflexões rápidas podem nos ajudar a olhá-los de outra forma. Vale a pena insistir um pouco.  Tentar convencer alguém sobre a importância da literatura nesta sociedade consumista e capitalista é difícil, principalmente se levarmos em consideração as classificações apresentadas em algumas obras técnicas sobre o tema: texto utilitário e não-utilitário. A literatura não é útil então?

A palavra literatura vem do latim “litteris” e significa letras, por isso se associa à gramática, à retorica e a texto. Porém, não se pode pensar que tudo é literatura: nem todo texto e nem todo livro publicados são de caráter literário. Definir literatura é difícil porque se trata de um conceito histórico. Se antes a literatura era feita de composições predominantemente orais e em versos, seguindo uma estrutura formal de acordo com critérios estabelecidos desde a antiguidade, na últimas décadas sofreu uma evolução, aceitado novos gêneros, plataformas, veículos.

Podemos resumir que literatura é a arte da escrita em que o mais importante é o como se diz e não o que se diz. Para muitos, a função é o deleite: quem não gosta de contemplar o belo? E não significa que a literatura fale só do que é bonito, mas fala de modo bonito sobre coisas, fatos, pessoas, inquietudes, alegrias e tristezas humanas. 

Mas essa não é a única função.  A catarse é outra, a ficção nos desperta emoções. Ao ler o livro Os meninos da rua Paulo,  provavelmente nos emocionamos quando Nemecsek adoece. O leitor tem compaixão!  Na vida real, ao nos depararmos com um garoto doente, sem grandes vínculos, provavelmente, ficaremos sensibilizados, mas não a ponto de nos emocionar como na obra do escritor húngaro. Nesse caso, há uma função além da catarse, há também a função humanizadora! A leitura aqui nos provoca pela forma e não pelo conteúdo. Como se essa leitura produzisse algo real, a partir do que não é real.  

A literatura também tem a função comunicativa: busca uma interação entre interlocutores de épocas diferentes, e a função cognitiva, já que a literatura sempre ensina algo mesmo quando isso não é compromisso (e não deve ser mesmo). Quem não conhece a versão da “Cigarra e a formiga”? Podemos lê-la presos ao enredo, como uma história de inseto, ou como metáforas de seres humanos, como metáforas de uma época, ou ainda como metáforas de nós mesmos, nos dois papéis e conflitos: quando ser formiga, quando ser cigarra? Por isso, esse e outros textos sobrevivem por séculos, pois ainda fala à essência do ser humano.

Há ainda, funções político-sociais, já que de uma forma ou de outra, o autor tenta manter um pacto com o leitor, para que nessa parceria, transforme a sociedade, ou pelo menos, reflita sobre ela.  A obra literária é resultado das relações dinâmicas entre escritor, público e sociedade, porque, através de suas obras, o artista transmite seus sentimentos e ideias do mundo, levando seu leitor à reflexão e até mesmo à mudança de posição perante a realidade, assim a literatura auxilia no processo de transformação social.

Citemos o livro Memórias de um sargento de milícias, cobrado muitos anos nos principais vestibulares do país, uma sátira às aventuras de inúmeros personagens representantes do Rio de Janeiro do século XIX. Essa obra está vinculada à sociedade em que se originou, o escritor não conseguiu ser indiferente àquela realidade.

No mínimo, o leitor desse livro deixa a leitura pensando no “jeitinho brasileiro”. Tal expressão nos faz sentir orgulho e vergonha, pois pode se referir a uma habilidade para a resolução de problemas, mas também de agir corruptamente para obter benefícios. No caso da obra citada, a expressão se refere ao último significado e, o pior, aos personagens do plano da ordem, que também têm seus deslizes.

Atrevo-me a citar ainda que na época do mensalão, várias vezes os ministros     Celso de Mello e Ayres Britto citaram o texto de Padre Antônio Vieira, O Sermão do Bom Ladrão.  Podemos dizer, então, que a literatura tem a função básica de levar o leitor a criar um repertório. E o melhor, com temas atemporais! Os livros clássicos são sempre atuais! A história de Dom Casmurro é de uma traição, ou não, e foca em um triângulo amoroso. E na saga dos Jogos Vorazes? Os personagens Peeta e Gale também são apaixonados pela mocinha da história.

A leitura de literatura clássica possui o caráter coletivo e inesgotável da construção do saber, pois dialoga com diferentes áreas do conhecimento. A leitura ajuda o leitor a pensar de maneira mais lógica e organizada, a formular de forma mais clara as próprias ideias.  E uma vez incorporada ao gosto de cada um não será desprezada tão facilmente, mas tenderá a fazer parte da vida de quem se acostumou a ler, pelos tempos afora.  A partir daí, a leitura não será apenas um passaporte para abrir portas para construir habilidades linguísticas, será sangue que corre nas veias.     

 

Daniella Barbosa Buttler é professora de Língua Portuguesa do Colégio Humboldt. 

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