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Letras da casa humboldt

Pintando o sete com o Miteinander - Texto coletivo

Texto coletivo escrito pelos professores área de Língua Portuguesa:  Ari Mascarenhas, Carolina Yokota, Daniella Buttler, Danielle Toledo, Leonita Horstmann, Letícia Carniello e Silvana Oliveira.

 

PINTANDO O SETE COM O MITEINANDER

 

            Uniram-se sete professores de português do Colégio Humboldt para uma reflexão sobre o tema de 2017: MITEINANDER. Imediatamente, delineou-se o desejo de o praticarmos e brota este texto a sete mãos. Uma prova de que educadores unidos jamais serão vencidos! E começamos bem representados, uma vez que o número sete tem uma simbologia singular, afinal sete são os dias da semana, as cores do arco-íris, os graus da perfeição, as esferas celestes, as ciências naturais, as virtudes, os pecados capitais, os sacramentos, as notas musicais, as maravilhas do mundo... Como se não bastassem esses expressivos exemplos, Deus fez o mundo em sete dias. Tal número representa, sobretudo, a criação, a perfeição e a totalidade.

            Nesse sentido, nossa exposição transcende significados e, ousadamente, associamo-la ao Miteinander, cujo primeiro olhar está no ato de praticar a solidariedade, no aprender em conjunto, no ensinar com prazer, no admirável gesto de compartilhar. Maravilhoso estarmos juntos, dividindo, somando e multiplicando! Maravilhoso contexto novo rompendo! Tal é a lição que emprestamos do livro Qual é a tua obra, do professor Mário Sergio Cortella, onde lemos uma frase de Luciano de Crescenzo muito pertinente para falar do Miteinander: “Somos todos anjos com uma asa só; e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. Esse enunciado faz todo sentido, pois podemos até ter duas asas em alguns aspectos da vida, mas jamais em todos, logo precisamos de outras pessoas para atingir nossas metas diárias. Esse é o princípio da vida em sociedade!

            Em uma perspectiva limitada pela visão egocêntrica, talvez possamos visualizar o outro como um concorrente das atenções, mas numa perspectiva mais panorâmica, constatamos que o outro pode compor conosco uma relação simbiótica. Stephen Covey, em seu livro Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, obra muito bem aproveitada em programas escolares, nomeia essa perspectiva limitada de mentalidade da escassez. Pessoas que pensam dessa forma veem a vida como uma fonte que apenas uns poucos sortudos esgotarão. Tal mentalidade não serve para outra coisa senão criar sofrimento; pessoas que pensam dessa forma não conseguem comprazer-se do sucesso dos outros, mesmo daqueles que amam. É preciso reformar nossa forma de ver a vida, ela não é um jogo em que um necessariamente precisa perder para que o outro ganhe. É preciso ver que a vitória do outro pode e deve nos trazer benefícios. Mas isso só é concebível, só faz sentido, se pensamos no trabalho em equipe, na interação eficaz, que traz resultados mútuos benéficos para todos os envolvidos, gerando resultados que o trabalhando individual é incapaz de gerar.

            Já se nos voltamos à literatura com a obra "Os Saltimbancos" - musical infantil inspirado no conto "Os Músicos de Bremen", dos irmãos Grimm -, perceberemos que a ideia de Miteinander está lá presente. São quatro animais diferentes que buscam fugir da cidade e tentar a sorte como músicos. Cada um, com suas idiossincrasias, simbolizam o diferente, o outro. E, justamente pelas suas diferenças, eles conseguem se tornar mais fortes. Ao juntarem o bico da galinha, as patas do jumento, os dentes do cachorro e as unhas da gata, não havia nada que pudesse detê-los: "Junte um bico com dez unhas/ Quatro patas e trinta dentes/ E o valente dos valentes/ ainda vai te respeitar/ Todos juntos somos fortes/ Somos flecha e somos arco / Todos nós no mesmo barco/ Não há nada a temer."

Da literatura para a vida real, encontramos no Ubuntu das tribos subsaarianas um paralelo do verdadeiro significado do Miteinander. Se houvesse uma forma de unificar as diferenças e singularidades das tribos subsaarianas, num território maior que a América do Sul, em um único sentimento em prol de um bem maior – essa unificação certamente seria o Ubuntu. Os bantus (do lado Oeste) e os ngúnis (do centro-leste), unidos na luta pela sobrevivência de suas culturas, de suas tradições e principalmente de sua identidade linguística: esse é o conceito que mobiliza o pensamento contemporâneo dessa região do mundo. O princípio do Ubuntu, como unificação e resistência, foi símbolo da luta contra o Apartheid na África do Sul, inspirou o líder sul-africano Nelson Mandela – “... o africano quer o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existam somente como aspectos da unidade universal”– e, também, ecoou, no início nos anos 90 do século passado, nas trincheiras Moçambicanas, quando a desestabilização instaurava-se com o patrocínio estrangeiro, consolidando-se, por fim, de Gabão à Tanzânia, do Congo à Madagascar, como uma consciência viva e renovável de que uma unidade comum (comunidade) só se forma com indivíduos livres e comprometidos com o seu papel na construção de um todo harmônico e sustentável.

Os termos Ubuntu e Miteinander, cujas traduções para o português, de forma simplória, podem significar “juntos”, dissolvem-se em uma série de entendimentos e conceitos além de sua tradução rasa. Ambos simbolizam um sentimento vital para a sobrevivência da espécie humana: união. Mesmo sentimento que envolve as personagens do Saltimbancos, o trabalho em equipe preconizado por Covey e Cortela e a própria ideia que nos moveu a escrever este texto.

Tomando para nós as lições de teóricos, literatos e africanos, não poderia ser outra a predisposição com que a equipe de Língua Portuguesa desenvolve seu trabalho em um Colégio de encontro de duas culturas riquíssimas que ora se aproximam e ora se distanciam, levando sempre à reflexão sobre nossa língua pátria pelo prisma do olhar do outro, o qual nos faz enxergar mais além de nós mesmos, num movimento duplo que nos capacita a devolver algo maior e melhor para esse outro. É fato: jamais nos aproximaremos de nossos sonhos sem aprender a ler os olhos e o coração do próximo.

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