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Letras da casa humboldt

Tecnologias Educacionais - Marcelo Milani

A Tecnologia Educacional, também conhecida por EdTech, tem ocupado um papel cada vez mais importante dentro dos projetos político-pedagógicos das instituições de ensino, especialmente no que tange à formação de professores, ao desenvolvimento de novas metodologias didáticas e à pedagogia de projetos.

Dessa forma, na expectativa de compor uma sutil radiografia capaz de demonstrar um pouco melhor a maneira como o cenário educacional-tecnológico brasileiro se compõe neste momento, selecionei cinco aspectos que considero importantes para compartilhar aqui com vocês, pais e educadores.

Ecossistema de EdTech

O panorama permanece em pleno desenvolvimento, mas já apresenta o que parece ser um Grupo de Elite da EdTech.

A maior parte dessas empresas possui média de existência de três anos e foram habilmente concebidas para gerar máximo valor para seus clientes (no caso, aqueles que consomem educação) dentro de modelos de negócios altamente escaláveis e repetíveis. Como todos que imprimem suas marcas nesse grupo aparente contam com equipes muito competentes e adaptáveis, reagem de forma extremamente veloz às flutuações de mercado, oferecem serviços de alta qualidade pautados em tecnologia de ponta e são fortalecidos pelo mentoring de grandes fundações e investidores, o cenário parece caminhar rumo à sedimentação de alguns grandes fornecedores de soluções educacionais tecnológicas para determinados nichos (linguagens, educação matemática, ensino de ciências, monitoria personalizada, ensino adaptativo, formação docente etc.). 

Conectadas a esse novo degrau da pirâmide de elite high-tech, tradicionais gigantes da tecnologia têm voltado suas lentes para o desenvolvimento de poderosas divisões de educação, disputando a preferência de alunos e escolas dentro de uma área na qual a pluralidade de opções felizmente parece longe de deixar de ser uma constante.

Dessa forma, se você acredita que um bom trabalho com tecnologias educacionais é um diferencial pedagógico no qual vale a pena acreditar e investir, seja você pai ou educador, identificar e conhecer o quanto antes quem são essas startups e corporações, é uma estratégia não apenas útil como também necessária, caso não goste de perder tempo e acredite que as escolas que reconhecidamente contemplam seus alunos com metodologias inovadoras também não gostem.

Big Data e Business Intelligence

A maior parte das empresas de EdTech produz uma quantidade quase inimaginável de dados acerca das escolas, professores e alunos atendidos, que vão de hábitos de uso e níveis de desenvolvimento cognitivo dos estudantes a sofisticados padrões de evolução que poucos são capazes de imaginar que podem ser identificados pelas plataformas educacionais.

Todos esses dados juntos, se interpretados da forma correta, provavelmente transformarão e resolverão qualquer problema pedagógico que você tenha ou possa imaginar, não importa se você é um pai a procura de novas propostas didáticas capazes de aprimorar o desenvolvimento de seu filho ou se é um profissional da área de educação que deseja apoiar seus planejamentos em estratégias mais refinadas e assertivas. Apesar disso, movimentos que caminham no sentido de integrar e cruzar referências de diferentes serviços ainda não são uma realidade. Informação é poder. Iniciativas que ambicionam reunir imensas quantidades de dados desestruturados pelo isolamento político das empresas do setor para dar a eles uma forma inteligível capaz de potencializar e agregar valor a todos os envolvidos existem, mas ainda são tímidas.

Em outras palavras, podemos afirmar que neste exato momento, bancos de dados hermeticamente protegidos como os verdadeiros tesouros que são, ainda escondem em si as peças que juntas formam o Graal que todos buscamos para responder às dificuldades do sistema educacional brasileiro, cujas reais necessidades permanecem muitas vezes ocultas sob montanhas de incoerências indetectáveis e cujos padrões só emergem de maneira efetivamente clara após complexas análises de dados quase sempre isolados.

Por outro lado, cientes da importância desse tipo de trabalho, alguns colégios já operam com suas direções e coordenações no sentido de reunir, selecionar e efetuar filtragens e cruzamentos de milhares de informações fragmentadas por meio de recursos próprios, baseados em estratégias de mineração de dados e em uma criteriosa análise humana de necessidades, tendências e potenciais respaldados por padrões estatísticos.

Inclusão e Acessibilidade

Embora todo o ecossistema de EdTech assuma estarem esses aspectos previstos em seus planos de negócios, grande parte das empresas do setor ainda não está plenamente preparada para oferecer seus serviços a portadores de necessidades especiais.

O ponto aqui é que não apenas esses alunos merecem ser acolhidos — pois a inclusão é uma questão fundamental de humanidade, antes mesmo de direito legal —, como precisamos todos nós enquanto famílias e educadores, oferecermos a eles as mesmas oportunidades educacionais que ofertamos a seus pares mais “privilegiados”. E as aspas devem-se à noção do entendimento que muitas vezes damos ao termo privilegiado.

Quando falamos de seres humanos, essa é uma designação que não apenas soa muito delicada como também tende à descontextualização. Ser privilegiado, em muitos casos, pode significar pura e simplesmente fazer parte da média. Que falem aqui os alunos com altas habilidades e superdotação, não raramente “tratoreados” por modelos pedagógicos desestimulantes, ou aquele pequeno exército de pequenos gênios cujas inteligências múltiplas são sistematicamente desvalorizadas por propostas míopes.

Mas é evidente que em termos de inclusão e acessibilidade, o espectro de necessidades pedagógicas especiais é imenso. Em um momento onde se discute diversidade e se deseja uma sociedade mais justa, propor novas formas de incluir é provavelmente uma dos principais desafios da Tecnologia Educacional. Por essa razão, cabe exercermos as pressões adequadas para que as empresas do setor entendam essa necessidade e contribuam para esse desenvolvimento.

Para quem ainda não se convenceu disso, imagine que a próxima grande ideia, capaz de resolver alguns de nossos maiores anseios sociais, pode estar hoje incubada no cérebro de qualquer um que possua necessidades especiais, aguardando um estímulo para desabrochar. Os exemplos de Beethoven, Gillian Lynne, Frida Kahlo, Stephen Hawking e Hellen Keller estão aí pra nos deixar isso bem claro.

Soluções-Combo

A constatação do surgimento de grandes conglomerados educacionais que vêm se estabelecendo no cenário nacional não necessariamente com foco em tecnologias, associada à evidente valorização e aumento dos investimentos no setor pelas grandes fundações, aponta para um mercado que parece estar, apesar das atuais circunstâncias políticas e econômicas de nosso querido Pindorama, em franco desenvolvimento.

Dessa forma, algumas empresas, na expectativa de abocanhar uma parcela desse mercado tecnológico-educacional, parecem apostar naquilo que poderíamos entender como soluções-combo, que se propõem a encerrar em si um amplo espectro de propostas que almeja atender a todas às áreas do conhecimento, das linguagens à matemática e a todas as necessidades escolares, do livro ao recurso paradidático, passando pelo objeto digital e pela formação de professores.

Considerando que atender a cada uma dessas exigências evoca um nível de especialização muito profundo de quem as planeja e executa para que sejam mantidos altos padrões de qualidade para todo o conjunto oferecido, as chances de encontrarmos um excelente serviço para educação matemática ou para desenvolvimento de habilidades leitoras muito provavelmente cresce na proporção inversa a o quanto uma startup se especializou no desenvolvimento de uma solução capaz de resolver os problemas dessa — e somente dessa — necessidade em particular. Alguém especialista em livros didáticos certamente não produzirá objetos digitais com a mesma qualidade com que produz obras impressas. Sabemos que as grandes editoras geralmente naufragam em soluções digitais insossas quando navegam por oceanos para elas tão desconhecidos. Extrapole esse raciocínio para o plano multidimensional das emergências da sala de aula e reflita se apesar das supostas facilidades geralmente apresentadas, as soluções-combo parecem ou não ser aquilo no qual devemos apostar, quando desejamos implantar um projeto de tecnologia educacional de excelência.

Eventos e Networking

O universo da Tecnologia Educacional tem sido terreno fértil para eventos de toda natureza. São feiras, palestras, workshops, seminários, congressos, “webinares” (seminários on-line) e fóruns de discussão, além de encontros entre instituições de ensino e startups promovidos por entidades e fundações com o objetivo de aperfeiçoar produtos e acelerar negócios por meio de feedbacks.

Embora vários destes eventos sejam restritos, muitos são abertos não apenas a escolas, mas também a qualquer um que se entusiasme por tecnologias e educação. Normalmente, essas oportunidades em especial são amplamente divulgadas em mídias especializadas e redes sociais, o que torna fácil saber quando e onde ocorrerão.

Esses encontros reúnem representantes de todo o ecossistema de EdTech. São empresas e editoras de todas as idades e tamanhos, investidores, profissionais de áreas técnicas e de infraestrutura, programadores, desenvolvedores, representantes das grandes fundações, políticos nacionais e internacionais, educadores, professores, gestores, acadêmicos, pesquisadores, jornalistas de educação e toda sorte de pessoas que contribuem e se interessam por educação e tecnologia. O potencial para troca de conhecimento e para o surgimento de novas ideias e parcerias, que amanhã poderão transformar vidas, é imenso. E essa talvez seja uma das maiores razões pela quais todos devemos participar e fomentar iniciativas dessa natureza.

Se você é pai e possui interesse em conhecer e participar de eventos desse tipo, aproxime-se das coordenações do colégio de seu filho e peça orientações acerca daquilo que a instituição considera interessante você acompanhar para manter-se o mais atualizado possível com relação a essas agendas.  Se você é educador, mantenha-se conectado às fundações e à mídia educacional.

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