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Letras da casa humboldt

Uma festa junina marcada pelo impacto de um poema! - Ari Silva Mascarenhas de Campos

Relato da atividade de intervenção poética realizada pelos 8º anos, durante a Festa Junina do Colégio Humboldt.

Ari Silva Mascarenhas de Campos

 

Uma festa junina marcada pelo impacto de um poema!

O mês de junho é um momento mais que especial do ano, pois nele celebramos a cultura caipira durante um mês inteiro. Cada festa de santo traz consigo crenças (mitos), culinária, costumes e valores formulados e reformulados de geração em geração. E o que mantém essa tradição viva? Certamente é a sua capacidade de adaptação e inovação durante suas realizações.

Isso mesmo, as festas juninas se reinventam todos os anos, graças ao interesse dos jovens em participar ativamente desse grandioso espetáculo cultural. Alguns grupos focam suas inovações nas brincadeiras tradicionais, outro nas comidas, têm pessoas que modificam a quadrilha, o pinhão, o formato da festa... enfim, são inúmeras as possibilidades de reinvenção que essas festividades permitem.

Na Festa Junina do Colégio Humboldt, realizada no dia 10/06, dentre as muitas atualizações ocorridas no evento, uma delas certamente marcou, positivamente, os convidados e os alunos que dela participaram. Trata-se da intervenção poética realizada pelos alunos do 8º ano. Para esses alunos, a importância dos mitos, das vestimentas, dos rituais e todos os elementos que circundam o universo caipira foram percebidos muito antes do dia 10 - durante o tempo em que pesquisaram esses fenômenos e os sintetizaram em seus poemas. O tema “universo caipira” foi muito bem representado nos textos produzidos pelos alunos, já que nessas poesias não faltaram a simplicidade do caipira e nem a complexidade cultural da Paulistânia. O tema foi trabalhado em sala através de pesquisas direcionadas e leitura interpretativa do poema Festa[1]. Ambos em harmonia com as representações da natureza e suas simbologias presentes nas quermesses.

Os alunos perceberam as raízes pagãs e seu sincretismo religioso nos rituais da festa, também observaram atentamente (nota-se em alguns textos) o equilíbrio entre os dogmas e as crenças populares. Ou seja, o universo que se desvelou, ante aos seus olhos, trouxe a magia de nossa cultura sintetizada na capacidade de cada um em ver poesia no espaço circundante. Preocupados com a forma, grande parte dos textos foram confeccionados como canções (redondilhas), dialogando com as cantigas de roda e todas as outras responsáveis pela popularização de nossa língua. Essa experiência mágica está descrita nos depoimentos dos alunos, registrados logo após o evento, para não perdermos a oportunidade de gravarmos, nas palavras deles: O instantâneo da alma.

Somados a isso, a experimentação se fez mais intensa com o modus da atividade: Intervenção Poética. Foram dias para produzir o texto, alguns para decorar, três dias de ensaios no campus do Colégio e, finalmente, o momento em que cada metro quadrado da festa tornou-se um palco. O tempo da apresentação e o momento da abordagem ficaram por conta dos alunos, que teriam ali a missão de impressionar alguém, escolhido aleatoriamente, assaltando[2] o seu tempo e introduzindo nele uma forte dose de poesia. Enquanto os poetas circulavam entre os convidados da festa junina, seus textos ficaram expostos em dois murais ou espalhados nas vitrines, barracas e outros espaços do colégio.

Pouco se podia prever da reação do “outro” antes de conseguir a atenção e começar a proclamar seu texto. Essa ansiedade alimentava o espírito libertador dos nossos jovens que, passada a euforia da abordagem, desenvolviam, majestosamente, seus poemas e encantavam seus ouvintes. Os alunos circularam pela festa durante todo o dia, abordando e recitando seus poemas. A coordenadora Elaine e eu, infectados pelo espírito poético, optamos por não apenas observar a movimentação deles e passamos a recitar, junto com alguns alunos, nossos poemas. A cada reação de um convidado, a cada assalto[3] do tempo dos participantes, podíamos ver a festa junina ganhar significação poética. Seus valores agora estavam disseminados em textos curtos e impactantes (poemas-pílulas) no coração, na memória e na vida daqueles que recebiam e, principalmente, daqueles que promoviam tal espetáculo. A experiência da intervenção poética, durante a festa junina, trouxe para essa turma um protagonismo artístico que revela a importância de cada um deles no processo de inovação do evento e da sociedade. Eles perceberam a importância que o olhar novo, crítico e dotado de novas experiências têm para a transformação daquilo, cuja preservação se dá pela efemeridade, ou seja, que são eles (jovens) responsáveis pela continuidade de um importante ciclo cultural, que carrega em sua essência as experiências e crenças de nossos antepassados; mas que a cada manifestação, ganha ares de novidade nas palavras, gestos e experimentações de seus contemporâneos. A intervenção poética durava poucos segundos; mas sua semente, espalhada em solos férteis, pode germinar ideias imensuráveis no presente.

Enfim, melhor que tentar terceirizar a descrição dessa sensação, é transcrever o testemunho de alguns deles. Em seguida, alguns dos poemas criados e recitados pelos alunos ilustram este registro. Apreciem esse belíssimo trabalho que ficará marcado para sempre em nossas mentes e em nossos corações.

 

Depoimentos

Fiz as intervenções com meu colega de classe Pedro Henrique. Intercalamos a recitação do meu poema com o dele. Aconteceram muitas situações engraçadas: Uma mulher nos ofereceu fichas para recompensar a intervenção, outra ficou um pouco assustada, um senhor ignorou no começo, mas depois ouviu atentamente e até pediu para que repetíssemos. Foi uma experiência muito divertida e nova. Espero que tenhamos mais.

C. S. (8ºC)

 

A intervenção foi uma experiência magnífica. A reação das pessoas é muito variada desde um aplauso tímido até algo mais eufórico. Outro ponto que gostei muito foi a criação dos poemas. É muito legal saber que inspiramos outras pessoas a fazer poesias.

M. H. (8ºC)

 

Eu acho que foi uma experiência única e divertida, mas eu não sabia como seria a reação das pessoas e foi bem engraçado abordá-las sem saber o que elas soubessem o que estava acontecendo, no final elas curtiam e nós, mais ainda.

L. I. (8ºC)

 

Fiquei ansiosa, as mãos trêmulas... achei que a voz não sairia, nunca disse um poema meu para tanta gente ao mesmo tempo. Mas depois, me senti como se todos ali me conhecessem.

 N. T. (8ºA)

 

As pessoas ficam curiosas, às vezes assustadas, mas depois que você começa a recitar, sorriem e agradecem. É muito recompensador.

G. C. (8ºA)

  

Foi uma experiência que levarei por toda a minha vida. Inesquecível.

M. E. B. (8ºA)

 

No começo é muito difícil, mas depois que você recita o seu poema e você vê a reação das pessoas com o improvável, com o impacto do momento... A sensação é impagável.

P. R. (8ºA)

 

Poemas

Peço-lhe alguns segundos

Pois só a atenção te mostrará

Minha beleza infinita

Outra igual não encontrará

 

Olhos azuis celestiais

Num olhar simples e caipira

Cuja beleza e história

Essa festa inspira.

L. G. (8ºC)

 

Aqui é um assalto!

Assalto de alegria

Que quero celebrar

Nesta linda poesia

Então vambora se aventurar

Nessa festa há muito o que esperar

P.H.B.C. (8ºC)

 

Com cores e cores as bandeiras dançam

Com bigodes pintados e saias rodadas

De maria-chiquinha as meninas cantam

 

Com pés e mãos, acompanhem então

De vivas e vivas à quadrilha de São João!

C. I. (8ºC)

 

Em noites quentes frias

Se ouve os passos do Curupira

Protegendo as florestas

Dos distraídos caipiras.

V.C.C.L.A. (8ºC)

 

 

 

Festa

 

Noites escuras com minúsculos big bangs

A luz da fogueira marca o espaço.

Entra quadrilha sem perigo,

Canjica, milho assado, pau-de-sebo,

Crianças encantadas, prisões em abrigo.

Rodas e cantigas encantam a maioria.

 

É junino

São João é dança e canção.

Festa, fogos, animadas alegorias,

Casamento caipira, lentilha, quentão.

Religiosa celebração andorinha.

 

Ninguém resiste a quermesse na serra

Da cultura, tradição e história nossa,

Semente da colônia solvendo em aguardente

Com gengibre, maçã e paçoca.

 

Lágrimas que protegem do estalar da madeira?

Não, de emoção por essa gente estradeira,

Que em tempos de mundo binário,

Fazem baile nas escadas do santuário.

 

Por mais pagão que seja o rebuliço,

Com maestria desce as ruas do cortiço...

Na noite de luzes do passado.

 

 

Ari Silva Mascarenhas de Campos

Professor de Língua Portuguesa

 

 

[1] Festa- Poema em homenagem às festas juninas caipiras, publicado em 2008. Ver anexo.

[2] Termo retirado do poema Assalto escrito e recitado pelo aluno Pedro do 8º C (ver anexo de poemas)

[3] Idem, nota anterior.

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